4ª Coluna Jogo de Cintura 03.01.2013 Carta aberta a Bento XVI

Caríssimo Papa Bento XVI, faz já algum tempo que tenho pensado seriamente em te escrever uma carta, contudo, como tu sabes, e o sabes muito bem, pois tens te tornado uma pessoa conectada, com o desenvolvimento das novas tecnologias, ao mundo todo, a gente foi, ao longo dos últimos anos, perdendo aquele gostinho de enviar e receber cartas. Bom, nem todos, pois de vez em quando recebo algum postal da queridíssima irmã Francismara, lá do convento de Clausura em Brasília. É muito bom e chega a ser maravilhoso receber de vez em quando uma correspondência de pessoas queridas. E como me faz bem receber uma cartinha, um bilhete ou coisa parecida. Estamos perdendo, se já não perdemos este romantismo. Mas hoje, trocamos e-mails, né? Falam que é mais rápido, mais objetivo, e tantas outras coisas fúteis…. Podem até ser mais rápidos, mas não são tão mais agradáveis. Isto não são! Lembro-me com emoção, Bento, daquela vez, lá pelos idos de 1993, em Roma, quando ali estava para os estudo de Direito Canônico e Direito Internacional, na Pontifícia Academia Eclesiástica, e na Segunda Seção da Santa Sé, aquela que trata das relações da Santa Sé com os Estado acreditado junto ao Vaticano, quando, numa manhã daquelas tão comuns em Roma, de uma hora para outra, (ah, tu não eras ainda Bento XVI, mas eras já um importante cardeal da Santa Igreja Romana, Prefeito da Sagrada Congregação da Doutrina da Fé, dicastérios romano que tutela a são doutrina e a sagrada tradição, e por te chamarem lá na Inglaterra até: rotwailer de Deus. Eras assim o cão de guarda da ortodoxia. Eras o leão de chácara do gigantesco João Paulo II, de quem te coube a honra e o sofrimento de te tornares sucessor, me vi sentado ao teu lado dentro de um ônibus de linha. Certo é que te aproximaste e tomaste assento no ônibus da linha 64, aquela famosa linha de ônibus que corta o coração de Roma. Nem me lembro bem de onde vinhas e nem para onde ias. Lembro-me de que, de uma hora para outra, estavas ali sentado do meu lado…. E tua presença causou tanto rebuliço no ônibus, que vários colegas meus naquela viagem ficaram mais espantados com a tua presença do que eu mesmo com a tua companhia, pois só depois de ter sido alertado pelos companheiros é que me dei conta e notei quem era o meu companheiro de banco de ônibus e onde estava. E como foi bom ter encarado isso com tanta naturalidade, pois à tua pergunta de onde eu era, e tendo te respondido que era brasileiro, deste um sorriso daqueles que somente tu sabes dar, por trás do qual se percebe um homem sensível, delicado e atencioso com teus interlocutores. Ali eu mesmo já não tinha aquela imagem que te implantaram de um homem duro, seco, inacessível. Não foi esta a sensação que me veio à mente. E nem nós dois tu e eu poderíamos imaginar que serias elevado ao Trono de São Pedro alguns anos mais tarde, não é mesmo? Mas eu já te admirava pelos teus escritos e por aquela inesquecível aula na Universidade La Sapienza, quando foste falar dos dramas e desacertos do homem contemporâneo. La Sapienza é uma Universidade do Estado Italiano, uma das melhores do mundo, mas também um ambiente avesso a coisas religiosas, como quase todas as universidades hoje em dia, não é mesmo? E muitos se esquecem de que foi a Igreja, na Idade Média, o tão falado período obscurantista, que criou as Universidades, como as temos hoje.  Lembro-me bem de quando chegaste ao anfiteatro da tua exposição: chegaste, e como os tempos não te eram propícios, levaste uma solene vaia dos mais de 1200 alunos presentes e convidados a estas grandes salas, que conhecemos por Aulas Magnas, em Roma, e não te deixaste contagiar e contaminar pelo ambiente avesso naquele momento. Com serenidade suportaste a indelicadeza das vaias de teus ouvintes, muitos deles tomados de prematuro preconceito, e tranquilamente te apresentaste, como se isso fosse mesmo muito necessário, e começaste a falar… e falaste por mais de 90 minutos, e à media que falavas, todos íamos ficando suspensos de teus lábios e embevecidos de tuas palavras e raciocínio rápido e bem humorado, pois entre um e outro pensamento mais sério e delicado, sabias jocosamente jogar com as palavras e com elas brincavas e nos divertias a todos, e só então nos demos conta de que estávamos diante de um monstro sagrado da Igreja Católica. Teu italiano bastante razoável para um alemão de origem. Discorreste maravilhosamente sobre os dramas e os traumas do homem contemporâneo no seu todo e nos deixaste uma lição inesquecível de antropologia filosófica e religiosa. Resultado: ao final da tua preleção, te arremetemos uma saraivada de aplausos que demoraram mais de 15 minutos, lembras-te? Aliás a esse negócios de aplausos prolongados tu estás absolutamente acostumado, não é mesmo? Então naquele 19 de abril de 2005, depois de todo o calvário de sofrimento de teu particular amigo e confidente João Paulo II, os cardeais da Santa Igreja resolveram te chamar para substituir um dos maiores papas da história da Igreja. Alguns esperavam, outros se assustaram e todos ficamos admirados. Nosso ex-arcebispo, Dom Luciano, naquele dia, estando ainda em Barbacena, me telefonou dizendo que passaria por Lafaiete, e estaria aqui na casa paroquial tanto para conversarmos um pouco, quanto para acompanhar a eleição do novo papa, preferencialmente ao vivo, na televisão, o que para mim foi um gesto de amizade e delicadeza, mesmo porque ele sabia que gosto de acompanhar as notícias do mundo todo em várias línguas desde as primeiras horas da madrugada… E depois daquela confusão toda gerada em torno do nome do novo Papa, pois as televisões não tinham percebido claramente qual era a idéia que tinhas para o teu nome do novo pontificado, quando se chegou ao consenso de que havias escolhido mesmo o nome de Bento, e passavas de Cardeal Ratzinger para Bento XVI, Dom Luciano, de mãos unidas e mãos postas, me convidou para rezarmos juntos um Pai Nosso e uma Ave-Maria nas tuas intenções e antes mesmo que aparecesses no Balcão do Palácio Apostólico, na Basílica de São Pedro, já estávamos ali nós dois rezando por ti e pelos frutos de teu ministério petrino. E estas foram as palavras de Dom Luciano: “é um grande homem, que ama profundamente a Igreja de Jesus Cristo!”…… Contato: pe.jmcs@yahoo.com.br

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