SPALANCATE LE PORTE DEI VOSTRI CUORI!

Neste dia primeiro de maio, segundo domingo da páscoa, domingo da Divina Misericórdia, o Papa Bento XVI, numa rápida e audaciosa escuta da multidão que se aglomerava na Praça São Pedro no dia em que o mundo cristão, judeu, muçulmano e ateu se despedia da venerada figura de João Paulo II, passados já mais de cinco anos, enquanto a multidão e as milhares de faixas espalhadas por toda aquela majestosa praça de São Pedro exclamava: “Santo Súbito!” expressão em língua italiana que significa: Santo Já, e depois de constatado, para prova de confecção dos autos do processo que o levariam ao segundo estágio antes da Canonização, o reconhecimento em grau elevadíssimo da prática das virtudes necessárias para a Igreja declarar alguém santo, aquele da Beatificação, cerimônia que todos nós vamos acompanhar pelos mais variados canais de televisão do mundo todo.

“Seriam várias as virtudes e dons que poderíamos ressaltar na personalidade e atuação de João Paulo II. Ressalte-se aqui o que nos parece uma marca sólida de sua personalidade: a busca da santidade. O papa João Paulo II resgatou para a Igreja e o Mundo a busca da santidade como vocação dos fiéis cristãos, sobretudo aqueles engajados no mundo da política e da transformação social. Em torno desta busca pela santidade ele pautou sua visão de Igreja: escola de comunhão dos santos; sua doutrina social: santidade como justiça. A partir do conceito de santidade ele defendeu os direitos de Deus e os direitos dos homens. Vislumbrou a santidade como meta teológica e antropológica, como realização plena do ser humano e conseqüentemente da criação.

Por isso não se pode estranhar que se clamasse durante seu funeral: santo súbito! Nunca talvez, tanta gente teve tanta oportunidade de entrar em contato com um papa como se teve com João Paulo II, em todas as suas viagens ou pastorais ou como chefe de estado. Sua primeira viagem ao Brasil (1980) foi pontilhada de emoção. Pôde-se ouvir, então, o papa dizer abertamente tantas palavras que gostaríamos de ter podido dizer, mas a ditadura militar vigente não permitia. Visitou os presos da Papuda em Brasília, a Favela do Vidigal no Rio e em São Paulo encontrou os trabalhadores num estádio de futebol, quando todos acompanhávamos a criação de movimentos sindicais que lutavam por dias melhores. Ficou marcada em nossas cabeças aquele capacete com o qual ele se apresentou em determinado momento da conversa com os milhares de trabalhadores.

Viveu no século de duas guerras terríveis e da queda do totalitarismo comunista que ele ajudou a derrubar, com sua argúcia e perspicácia, travando os mais difíceis diálogos a quatro olhos com os principais dirigentes do mundo. Teve coragem também ao protestar contra a guerra movida pelo império norte americano contra o Iraque. Aliás, foi a única voz a se levantar e condenar a primeira invasão do Iraque, na famosa guerra do Golfo. Em nome de Deus ele levantou sua voz também contra o neo-liberalismo, o qual promove uma globalização sem solidariedade e uma multidão incontável de excluídos. Talvez pareça exagerada a comoção quando de seu desaparecimento. Sua partida deixou uma saudade imensa. Eu mesmo tive oportunidade de estar várias vezes pessoalmente com esse homem admirável. Tivemos até oportunidade de trocar algumas risadas em razão de uma brincadeira feita numa de suas Audiências aos alunos da Pontifícia Academia Eclesiástica, em Roma.

Ninguém é insubstituível, mas ninguém é igual. E ele fazia bem ao mundo com a sua proposta de santidade, defesa dos direitos de Deus e dos homens, do clamor pela preservação da vida, pela paz. Ele se fazia ouvir até mesmo pelos que não gostavam dele e por isso tentaram assassiná-lo. Foi uma liderança sólida em um mundo carente de líderes verdadeiros.
Não podemos esquecer também que a Igreja é apostólica. A Tradição nos ensina que a missão apostólica precede a comunidade e a constitui. A apostolicidade fundamenta a existência da comunidade, porque os primeiros missionários com mandato direto de Jesus foram os apóstolos. Entre eles Pedro é o principal. E João Paulo II foi sucessor de Pedro na Sé de Roma, a qual preside na caridade e confirma na fé. Neste espírito de fé e caridade ele foi pranteado à luz do círio pascal. E hoje no tempo pascal a Igreja se alegra, proclamando a sua ressurreição ao beatificá-lo: “quem com Cristo sofre com Ele será glorificado”. Quando alguém morre nossos julgamentos se tornam mais coerentes e corretos sobre o morto. Isto porque em vida vemos atos isolados. Mas na morte de alguém vemos o conjunto de sua vida.

Deixamos de examinar o varejo para examinar o atacado. À medida que o tempo passa a grandeza vai aparecendo com mais força. Com João Paulo II foi assim. A história já lhe rende homenagens justas e merecidas. Quem poderá esquecer a grandeza deste papa que ousou pedir perdão pelos erros do passado da Igreja, no que foi um dos pontos altos das comemorações do jubileu do ano 2000? Ele provou que a humildade é a virtude dos fortes e dos que têm uma mente sadia, capaz de promover a reconciliação e a paz, através do perdão. Sem perdão, a justiça será sempre uma maneira de vingança em todas as circunstâncias. Em uma sociedade moderna ou pós-moderna, mas desencantada, porque percebe, que a morte de Deus tão propalada, acarreta de certa forma, a morte da pessoa humana, a fortaleza e a alegria de viver de João Paulo II deixaram saudade. Ele era um semeador de esperança.

Na Igreja dos primeiros séculos se dizia que o bispo, sucessor dos apóstolos exerce seu serviço em nome de Jesus, porque recebe o ofício de embaixador que vem da parte de Deus (cf. S. João Crisóstomo in Com. Ad Col. 3,5). Mais que nenhum outro bispo João Paulo II foi embaixador de Deus no final do século passado e no início deste novo milênio. Por isso não o esquecemos e a Igreja confirma o dom que Deus lhe deu: a santidade da qual o mundo sempre teve fome. A propósito do título da coluna: escancarai as portas dos vossos corações ao Redentor!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *