5ª Coluna Jogo de Cintura 09.03.2013 Carta aberta a Bento XVI

….. “é um grande homem, que ama profundamente a Igreja de Jesus Cristo!” E vieste no teu pontificado. Tantas coisas para resolveres, talvez uma das mais dramáticas tenha passado despercebido: “ainda nos funerais de João Paulo II, uma multidão apertada na praça de São Pedro começou a gritar desvairadamente: João Paulo II, Santo Já, imedidatamente…… Ali, Bento, começou teu calvário, porque sabíamos o grande grau de suspeição que recairia sobre ti, dados os prazos que normalmente a Santa Igreja tem com relação a estes momentos e pelo que me lembro, e poucas pessoas se lembram da história, a última vez que isto teria acontecido, salvo melhor juízo, foi na morte de Santo Antônio, quando o povo que o conhecia, invadiu as praças para gritar: Antônio, santo já! Antônio, santo já.!, Então, caros leitores, desta carta ao Bento XVI, querem saber quando aconteceu? Justamente na morte de Santo Antônio. E tu deveste administrar este grave momento da história. E o fizeste com maestria e com leveza de espírito, porque soubeste tratar de uma questão tão delicada. E o fizeste bem. A função que recebeste dos teus colegas e irmãos cardeais te apresentaria tantos outros espinhos que seriam terminantemente cravados na tua carde. Os desencontros na Universidade da Alemanha, quando citaste um imperador muçulmano, e foste condenado peremptoriamente pelas palavras de um muçulmano. A aula-magna em Regensburg foi outro motivo de ataques a ti, Romano Pontífice. Disseram que, ao citar um diálogo de Miguel II, o Paleólogo, com um erudito persa, estavas desrespeitando o Islamismo e Maomé, o seu profeta. Tiveste que explicar, em nota posterior, que fizeste apenas uma citação ilustrativa sem te comprometeres com a ideia do autor citado. Os ânimos se serenaram e pouco tempo depois, estiveste na Mesquita de Istambul, na Turquia onde entraste descalço, não por relativismo religioso, mas, sim, por respeito à cultura religiosa islâmica. E o famoso episódio da visita ao capo de concentração? Quanta polêmica. Aliás, profeticamente teu pontificado foi marcado por algumas delas e estas polêmicas fizeram toda a diferença porque trouxeram à tona discussões necessárias e indispensáveis ao homem moderno. Das polêmicas, o primeiro foi o proferido no Campo de Concentração de Auschiwitz, em que repetiste a angustiada pergunta do povo: Onde estava Deus? – Ora, retirando o texto do contexto, acusaram-te, Santo Padre, de teres blasfemado, pois parecias duvidar do Pai celeste, que te chamou ao ministério de Pedro. E na verdade, repetiste o grito do povo, reproduzido por escritores diversos, para responder-lhe que não cabe a nós julgarmos a Deus, em momento algum, mas, ao contrário, nesse grito ao Senhor devemos olhar para nós mesmos, a fim de tentarmos entender também a nossa responsabilidade frente aos trágicos acontecimentos da história. Mas o que marcou muito e profundamente tua vida e teu pontificado, foram os vários casos de pedofilia de pessoas diretamente ligadas à Igreja. Já no ano de 2002, teu predecessor de saudosa memória, João Paulo II, havia dito que uma grande sombra de desconfiança estava pairando sobre a Igreja por causa dos pecados de alguns de seu filhos. O cardeal que fará o anúncio do teu sucessor, o Francês Jean Louis Tauran, em 1992, nos chamou a nós padres latino-americanos da Academia Eclesiástica, à Secretaria de Estado do Vaticano, e nos alertou: “Vejam, vocês estão embarcando para os Estados Unidos, nos próximos dias, para um trabalho e experiência pastoral na Arquidiocese de Los Angeles, com o arcebispo Mahony. Tenham muito cuidado, não fiquem sozinhos e isolados com crianças, a não ser no momento sagrado da confissão, porque está em curso nos USA a indústria da denúncia de pedofilia, pois a qualquer um pode ser imputada a denúncia, desde que se encontre nestas circunstâncias e situação. Portanto estejam atentos em razão de sua cultura regional na América Latina de contato próximo com as pessoas.” E ali, Bento, eu já percebia o calvário que a Igreja sofreria em razão de problemas internos de mal comportamento de alguns de seus filhos. Sem tomar teu precioso tempo, pois tu também deves estar já ansioso para o próximo conclave e ver tua igreja entregue novamente às mãos de te sucessor, mas vale recordar aqui alguns dados importantes e interessantes, se não vejamos: Bento XVI, tu foste, mais de uma vez, acusado de cumplicidade nos casos de pedofilia dos clérigos e religiosos que abusaram de seus fiéis e chegaste até a ser ameaçado de processo judicial por um advogado norte-americano sensacionalista. O fato caiu no vazio por falta de provas. Vale lembrar, pelo menos, duas questões: 1) o jornalista Leandro Sarmatz, após estudar bem o tema “pedofilia”, declara: “Nos Estados Unidos, cerca de 80% dos casos de abuso sexual de crianças ocorrem na intimidade do lar: pais, tios e padrastos são os principais agressores. O noticiário da TV alardeia o escândalo dos padres pedófilos […], mas o grosso dos casos acontece mesmo dentro da casa”. Para ilustrar o que disse, Sarmatz cita o caso escabroso de uma menina de 13 anos abusada pelo avô. “Detalhe: suspeita-se que o avô, na verdade seja pai da menina, pois anteriormente ele mantivera relações sexuais com a mãe dela e filha dele” (Superinteressante, maio de 2002, p. 40); 2) os tão alardeados casos de pedofilia cometidos por padres nos Estados Unidos somados em várias décadas não passavam de 0,3% dos religiosos. Na Irlanda, os padres pedófilos somam 43 em 49 anos, número insignificante (deveria ser quase nulo), embora causem alarde por serem os sacerdotes ministros de Deus e grandes responsáveis pela defesa da inocência das crianças. Tais ocorrências, devidamente comprovadas, não podem ser toleradas nem pela Igreja e nem pelo Estado, em qualquer parte do mundo. A ocorrência de casos de pedofilia na Igreja é, portanto, real, pois, embora santa, a mãe-Igreja traz em seu seio filhos pecadores ou mesmo doentes mentais, que devem ser afastados imediatamente de suas funções e encaminhados para tratamento psicológico e/ou psiquiátrico, conforme o caso. Todavia, a solução para esses casos está na espiritualidade retamente vivenciada, na formação séria do dever assumido e na punição dos errantes, não no matrimônio por exemplo dos padres tão simplesmente como forma de solucionar a questão, até porque, como já foi visto, a vida sexual ativa não impede a prática da pedofilia, haja vista os casos envolvendo pessoas de todas as classes na sociedade, como médicos, advogados, professores, pais e padrastos. A imensa maioria dos casos ocorre nos lares ou nas estruturas da sociedade. Ora voltando então a ti, Ratzinger, vemos que os casos foram enfrentados, de modo sereno, mas destemido, seja enquanto foste prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, seja na condição de Papa, sucessor de Pedro. Afrontaste os casos mais dolorosos e os resolveste com a firmeza e competência necessária, pois convocaste a todos nós à tolerância zero com os pedófilos sejam quais forem, te encontraste com vítimas de clérigos pedófilos em Malta, em 2010, abordaste corajosamente a questão em tua visita aos Estados Unidos da América e jamais deixaste de tratar com severidade tal comportamento a ponto de seres elogiado pela revista Veja, de 22 de fevereiro último. Aqui descobrimos então que podes, a justo título, ser considerado um grande batalhador na defesa da fé e da moral católica, moral que, evidentemente, condena e combate a pedofilia e, por isso a seguiste à risca fazendo, como pôde, uma verdadeira faxina entre os poucos clérigos e religiosos pedófilos que mancham a maioria séria e cumpridora fiel de sua missão de anunciar o Reino de Deus entre os homens….. Contato: pe.jmcs@yahoo.com.br

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